Journaling no processo criativo

 

  "making your unknown known"

 

Tenho andado recentemente a ler um livro sobre um ano na vida de Georgia O’Keeffe, aos 96 anos, já cega. Durante esse ano, foi assistida pela artista Christine Taylor Patten e uma das coisas que me ficou de tudo aquilo que avidamente vou lendo das conversas delas — tão cuidadosamente publicadas por Christine Taylor Patten para não comprometer a privacidade e a vulnerabilidade de Georgia naquela idade — foi o facto de Georgia dizer que uma das coisas de que se arrependia era de não ter feito um diário.

Por outro lado, Christine conta que uma das coisas de que nunca se arrependeu foi precisamente nunca ter escrito um diário, porque, se o tivesse feito, no momento de escrever o livro, em vez de procurar dentro de si as memórias que tinha daqueles dias, tê-las-ia ido procurar ao diário, e isso, segundo ela, teria sido feito com menos presença.

Fiquei a pensar: o que quereria eu para mim?

Muitas vezes, nos meses que se vão sucedendo ao falecimento da minha mãe, uma das coisas que mais adoro é recordá-la nas páginas dos meus cadernos, através de desenhos, rabiscos dela, ou memórias desenhadas, ou escritas — como nos dias em que ia fazer-lhe companhia a casa, aproveitando para a pôr a pintar, ou no lar, quando as nossas conversas, já muitas vezes desconexas, traziam momentos únicos e não despidos de humor, apesar do momento.

Uma hora com os meus cadernos é uma hora com a minha mãe, e com um momento incrível da minha vida que, com a ajuda da escrita, vou digerindo a cada dia.

 
 

A escrita sempre fez parte da minha vida, desde a adolescência, quando o meu diário fechado à chave era o meu confidente e a minha ansiedade — sempre preocupada que o meu irmão o tentasse abrir.

Escrever um livro sempre foi uma voz de fundo na minha vida criativa, mas vivi muito tempo com a sensação de que não teria nada a acrescentar aos milhares de escritores que adoro ler. Decidi que, para escrever realmente um livro — e sobretudo depois de ler Annie Ernaux — eu teria de ser excelente. E, na realidade, não sou.

Mas sou noutras coisas. E uma delas é a busca de respostas interiores, sem medo dos lugares a que me levam, através de um journal, quer no meu dia a dia, quer na minha vida quotidiana no atelier. Sou perfeitamente capaz de manter uma disciplina com prazer e, com essa capacidade, escrevi durante anos e anos, sem nunca ter contado, sequer, a quantidade de cadernos que fui acumulando — por séries, por marcas pelas quais me vou apaixonando.

Foi esta disciplina e consistência no caminhar que foi abrindo caminho para chegar a um lugar que ainda desconheço como destino, mas que também deixou de me interessar saber.

 
 
 

Como escolho um caderno?

Primeiro quero dizer que a capa, embora possa ser aquilo que nos chama imediatamente a atenção, não é o que faz a grande diferença, mas sim o conjunto da capa com o tipo de papel. Depois de muitas tentativas e erro, comecei a ganhar gosto por analisar, antes de comprar, os vários cadernos e o papel. É um gosto que nunca mais se perde e uma curiosidade que aumenta a cada dia.

Neste momento sou adepta, já há alguns anos, da Libri Muti, uma marca italiana que me inspira por ser uma réplica de capas de livros, pela grossura dos seus cadernos, pelas cores das lombadas e pela costura exposta, mas também — e sobretudo — pelo papel. Um papel não muito grosso, ligeiramente áspero, que funciona muito bem para escrever com conforto e pintar, inclusivamente, com aguarela, embora à primeira vista possa nem parecer.

Uso também, em paralelo, os cadernos da Leuchtturm1917. Adoro toda a história e longevidade desta marca, o cuidado colocado em cada detalhe, bem como o papel, totalmente diferente do anterior e próprio para caneta de tinta permanente. Descobri recentemente que Leuchtturm significa Farol, o que é muito apropriado para o que estamos a fazer dentro dele. (Lê-se LOICHTURME.)

Estas são as marcas que uso há alguns anos e ainda não me apeteceu sair delas

Em Portugal, gosto muito da Folha Persistente, que usei também durante dois anos e à qual volto com regularidade. Geralmente, eu e a Maria João fazemos fusões de ideias, e o caderno azul que publico é uma dessas fusões criativas. Tem 120 folhas de papel Canson e as capas são sempre escolhidas por mim, dentro da oferta vasta que ela tem.

 

Papelaria Modelo

Numa das minhas idas ao Porto — geralmente idas ao dentista —, mesmo já sendo final de dia, resolvi chamar um Uber e ir para o outro lado da cidade porque queria muito voltar à Papelaria Modelo, onde já não ia há alguns anos. Lembro-me de que, quando tinha 17 anos e andava na Cooperativa Árvore, esta loja, juntamente com a Sousa Ribeiro, era um verdadeiro fascínio para os jovens estudantes de arte.

Quando lá voltei naquele dia, reconheci imediatamente algumas das senhoras que ainda permaneciam atrás do balcão. Perdi-me no meio de tintas e papéis e, de forma um pouco tímida, fui abordada pela Magali Marinho, atual fiel depositária da herança desta loja na cidade do Porto. E aí começou a nossa parceria. Uma simples ideia de ir a um sítio traçou um novo rumo nas nossas vidas. Eu podia não ter ouvido o meu interior!!

Os workshops no atelier Papelaria Modelo/atelier EXPANDIDO são mais do que workshops. São encontros privilegiados, com acesso aos bastidores de uma loja centenária e à generosidade da Magali, que nos proporciona um verdadeiro banquete de estímulos artísticos. Geralmente, as mesas são sempre preparadas com uma intenção estética e didática, e como tudo é feito com amor, perdemos a noção das horas.

Juntas criámos uma série de encontros onde o journaling é a vedeta, acompanhado por uma mesa cheia de materiais de arte, num tempo em que a tecnologia invade os nossos dias sem limites nem permissão.

Somos adeptas da escrita manual e do regresso a certas práticas mais analógicas, para bem da nossa saúde mental.

 
 

Porquê escrever à mão com regularidade?

Já para não falar que escrever à mão ativa uma grande percentagem do nosso cérebro — como podem ver nesta palestra — e que tal não acontece com a escrita em computador. Os benefícios para a regulação e para a paz do nosso sistema nervoso, diariamente sujeito a algo a que se chama Low Level Stress, são imensos!!

As pessoas perguntam-me:

“Graça, porque é que vou escrever que fiz cinco máquinas de roupa naquele dia???”

Porque, na pior das hipóteses, graças a isso, terás a noção de que as fizeste com qualidade e presença e que não passaste apenas pelas tarefas de forma sonâmbula!!

Se falarmos de uma questão mais alargada, escrever — senão diariamente — durante 10 minutos, de manhã ou ao deitar, pelo menos uma vez por semana, ajuda-nos a perceber, nomear, aprofundar, resolver problemas, delegar numa força maior, desabafar… contabilizar, recordar… fazer um check-in com a nossa essência — única — e que, tantas vezes, ao longo dos anos, deixa de viver em nós para viver fora de nós, a cuidar do outro.

Desalinhados, desarmonizados, inquietos e, muitas vezes, deprimidos, vagueamos pelas situações da vida sem nos darmos conta de que o tempo passa rapidamente e que, na maior parte das vezes, pouco fizemos por nós.

Podia ficar aqui a dissertar, mas deixo essas explicações para os dias dos nossos encontros.

 

O que fazemos nos workshops?

Geralmente, o tempo é dividido em dois blocos, com um lanche pelo meio. Um dos blocos é dedicado ao journaling e o outro é um momento em que o journaling se complementa com todos os materiais que estão à nossa disposição.

No entanto, nada é fixo: tudo é flexível. Um projeto pensado para o workshop daquele dia pode ser totalmente invertido ou até alterado, consoante a necessidade do momento e do grupo em si.

Há, porém, uma coisa que é fixa e de suma importância. No início, há uma apresentação em que cada pessoa tem um minuto para se dar a conhecer, enquanto todos os outros registam o nome e algo que lhes chame mais a atenção na pessoa que se está a apresentar. Este momento é, por si só, um exercício de escrita e de abertura à vulnerabilidade e, além de nos permitir fixar imediatamente o nome de todas as pessoas — porque ao escrevermos o cérebro assimila —, abre também a porta à delícia que é reconhecer que somos todos seres fascinantes e com tanto para dar.

Médicos, professores, mães, estilistas, lojistas… a lista é interminável.

 
 

Como se podem inscrever?

Não tenho datas fixas para os workshops. Vou marcando de acordo com o tempo que quero dedicar à minha pintura e também a estes encontros, sem que um se imponha ao outro.

Por isso, quando projeto um dia convosco, eu e a Magali (se for no Porto) fazemos o lançamento através das redes sociais da Papelaria Modelo, do

Atelier Expandido e das minhas páginas no Instagram, LinkedIn e aqui, com toda a informação necessária.

A inscrição é feita diretamente através do Instagram da Papelaria Modelo ou do atelier EXPANDIDO, e dos contactos aí fornecidos.

 
 

Onde faço mais os meus workshops?

Honestamente, faço-os sempre em sítios de que gosto e nunca apenas porque fui convidada.

Em novembro do ano passado, desci ao Algarve para, no contexto de uma exposição na galeria GAMA RAMA, realizar um workshop. Foi um grupo muito mais pequeno, mas o resultado foi maravilhoso. Criou-se um grupo que, precisamente por ser reduzido, permitiu uma troca de ideias mais profunda — neste caso entre mães —, todas elas a debaterem-se com questões semelhantes…

 
 

O que preciso para poder fazer um workshop?

Vontade e abertura. Apenas!!

Não precisam de escrever bem, nem de ter esse hábito, nem de desenhar. Tudo é suposto ser uma experiência que nos tira do lugar de conforto, porque é só assim que ele se expande nas nossas vidas.

Os meus workshops são apenas para adultos e têm 12 pessoas como número máximo.

Levar material vai depender do local onde for realizado. Geralmente, tentamos ter patrocínios de marcas de cadernos e já tivemos a sorte de contar com a Leuchtturm, a Beija Flor e a Libri Muti a patrocinar o nosso journaling, o que faz com que levemos para casa cadernos muito especiais.

 
 

Qualquer duvida sobre este conteúdo?

Contactar através de gracaempaz@gmail.com com o tema no assunto: WORKSHOP*

 
 

P.S.

Para quem não sabe, tenho uma página no instagram vocacionada apenas para os meus cadernos e escrita diaria que desliga o ruído de tudo o resto tal como quando mergulhamos num momento de escrita. Convido-vos a seguir.

Daily sketches and notes

 

Fotografias de Joana Azevedo